Projeto @banheirodehomem divulga estudo sobre masculinidade tóxica em pichações de banheiros
Dados do ensaio social revelam que 57,7% das mensagens encontradas em banheiros masculinos são discursos de ódio.
Você já parou para pensar no que as pichações em banheiros masculinos e femininos têm a dizer sobre masculinidade tóxica? É exatamente isso que o projeto @banheirodehomem foi buscar saber comparando o teor de frases e expressões entre os banheiros femininos e masculinos.
Antes, porém, é preciso entender os pontos que levam a masculinidade tóxica, partindo já dos mitos que surgem desde a infância sobre o que é e o que não é “coisa de homem”. O problema é que esses mitos levam a comportamentos tóxicos que fazem mal para quem é homem, já que sentem que têm que mudar quem são para caber numa “receita” e serem aceitos socialmente. Mas também fazem mal para quem convive com estes homens, afinal, esses mitos são a base de problemas como o machismo e a homofobia.
A masculinidade tóxica ensina que mostrar emoção, chorar e se abrir emocionalmente são “fraquezas” e traços a serem evitados a qualquer custo, porque “homem que é homem é sempre forte”. Isso faz com que, além de evitarem mostrar afeto, eles vejam como mais fracas as pessoas que mostram, como revela o estudo. A representação de tudo isso, está estampado nas paredes dos banheiros, mas também está presente em todo o dia a dia.
Desde o lançamento do projeto, o perfil @banheirodehomem tem recebido contribuições de fotos de pichações em banheiros femininos e masculinos. A primeira fase também contou com as fotos iniciais dos fotógrafos convidados Lucas Pardal e Iasha Salerno. Ao longo de duas semanas, as contribuições foram compiladas e serviram como base para a pesquisa.
Uma comparação necessária
Quando as pichações começaram a ser analisadas, as primeiras impressões mostraram que, na maioria dos casos, elas não traziam uma assinatura de quem fez, mostrando que o objetivo de uma pichação em banheiro não é gerar retorno para o autor/autora, mas sim transmitir uma mensagem causando uma sensação em quem a lê. “Fica então a reflexão sobre o porquê um banheiro busca dar apoio e o outro espalhar o ódio? A resposta está na própria masculinidade tóxica, que tanto ensina homens que violência é coisa de homem quanto que ‘emoção, afeto e conversar sobre seus problemas’ não é”, reforça Simi.
Enquanto nos banheiros masculinos 57,7% das mensagens eram discursos de ódio, no feminino 66,8% das mensagens foram de apoio e conselhos de vida. Quando analisado o teor do discurso de ódio em banheiros masculinos, vemos que 33,8% das pichações envolvem homofobia, 14% ódio a mulheres, sendo que 5,6% deste total envolve agressão a mães.
Outro dado interessante está ligado às pichações sobre “Sexo”, que são assunto nos dois banheiros: no feminino, em 13,81% das vezes. No masculino, 16,26% das vezes. A quantidade pode ser próxima, mas a diferença está no tipo e teor das mensagens em cada universo: no feminino, as mensagens são sobre mulheres terem direito ao próprio corpo, ao empoderamento e a discussões sobre legalização do aborto. Já, no masculino, as mensagens estão relacionadas à dominação através de sexo anal, ao falocentrismo, a abusos sexuais e estupros e a comportamentos como se masturbar em locais públicos.
Banheiro de Homem
Os resultados do ensaio social podem ser vistos na página do Instagram. Com o apoio de Mash, marca de underwear que tem em seu posicionamento reiterado e proposto a reflexão sobre a necessidade de desconstruirmos estereótipos tão enraizados em nossa sociedade quando discutimos o masculino, o projeto tem como objetivo não só expor as diferenças, mas gerar conversa em torno do tema. Isso porque, é importante ressaltar, 75% dos homens, entre 24 e 44 anos, nunca ouviram falar sobre o tema, segundo dado da Google Consumer Surveys (abril/2018).
O projeto foi idealizado e realizado pela agência de earned media Soko, também responsável pelo trabalho de reposicionamento da marca em 2018.
Sobre o estudo:
O estudo foi realizado a partir de uma base estatística de 375 fotos, que foram recebidas entre 20 de março e 10 de Abril pelo perfil do projeto. Para chegarmos à análise apresentada, a metodologia usada foi a tabulação de frases observadas e agrupamento quantitativo por palavras e seu significado, chegando a 8 grupos de assuntos que foram mais recorrentes: liberdade sexual, orgulho negro, orgulho LGBTQI+, elogios, conselhos de vida, frases de tranquilização, discurso de ódio e outros, qualificando sempre os recortes dentro de cada grupo para entender, por exemplo, os tipos de ódio mais recorrentes no grupo “discurso de ódio”.

